8.11.09

On the Road


Fazer as malas. Escolher destinos, programações, ter onde repousar o corpo, a alma e os pensamentos. Olhar a paisagem que se perde em raios que correm nas laterais do veículo. ônibus ou carro. A estrada, de asfalto, terra e memórias. Essa reta, por vezes curva, que nos leva sabe Deus aonde. Visitar novas paisagens, revisitar lugares conhecidos, olhar em olhos de estranhos e reconhecer a sua história. Ao retornar, ter sempre a sensação de missão cumprida. A liberdade de não ter nada que te prenda, apenas a vontade de retornar, seja para casa ou para uma destas paisagens mágicas. Levar dentro de si, como na mala, todos os objetos do mundo. Levar os dias, as horas... Crescimento, aprendizado, todas essas baboseiras. Que são assaz importantes. Novas cores, antigas paixões, fotografias que ganham tonalidades diversas. Os laços que se rompem, reatam, se refazem em nós constantes, sempre desfeitos e aprimorados. O asfalto quente, as árvores molhadas, o horizonte rasgado por montanhas, ou nada. Apenas uma reta infinita, nublada, ensolarada. Céu limpo, de estrelas. Todo um estado de São Paulo. Em breve, todo o mapa do Brasil. Um mês, dois, um ano. Sempre com o pé aqui e acolá. Chegando de marcha-ré, voltando com as malas prontas para partir novamente. Essa é a minha realidade, daqui por diante. Até que o universo diga que chegou a hora de criar raízes definitivamente. Mesmo que essas raízes sejam daquelas plantas aquáticas, que estão sempre em movimento, levadas pelo curso de um imenso rio...

24.10.09

Beatlemania

Mais um bloqueio. Normal, faz parte, nem ligo mais para esta falta de vocabulário, esta burrice temporária, a alma loira tomando conta de tudo o que me compõe. O querer escrever e não conseguir, ter vontade de desistir do projeto do livro, dos blogs, de tudo...
Felizmente eu sempre tenho companhias maravilhosas quando a musa decide se isolar no polo norte.
Sejam elas reais, virtuais ou artísticas. Dessa vez, pegou muito bem!
Já faz mais de uma semana que a Beatlemania me acometeu da forma mais grave.
Não consigo parar de escutar, tenho acessado tudo que a internet disponibiliza sobre eles, e o pior é que não sei de onde veio esse impulso, é algo mais forte do que eu.
Para mim, os Beatles, além de geniais, me recordam de um tempo em que a inocência era mais presente. E reforçam a minha noção de que eu nasci na época errada!

Para celebrar essa presença ilustre na minha vida, eis que compartilho com vocês uma das músicas que eu mais curto dos rapazes de Liverpool.

Cheers!!




P.S.: Yellow Submarine é sempre um deleite!!

16.10.09

Blog Action Day - Mudanças Climáticas


A questão das mudanças climáticas é de crucial importância para nossa geração. Não só os seres humanos, todo o planeta, todas as espécies sofrem com as alterações de temperatura, com essas estações malucas que se apresentam. Convivemos com problemas como o que fazer com o lixo (de todos os tipos), como evitar desperdício de recursos naturais como a água, o que fazer para melhorar a qualidade destes mesmos recursos, como amenizar o impacto que já causamos no meio ambiente, entre inúmeros outros. Um deles justamente é a consequência deste impacto, tendo como uma das manifestações mais claras a mudança climática.

Neste dia de ação para discutirmos esta questão, apesar de eu ter me atrasado e não postado no mesmo dia que todo mundo - relevem, ontem foi meu aniversário! - achei válido escrever mesmo assim. Não vou elaborar um texto gigante sobre o derretimento das geleiras, fenômenos naturais causados pelas mudanças climáticas, e etc. Quero hoje deixar um triste desabafo, mas que retrata bem a nossa geração, que engloba indivíduos da faixa dos 20 a 30 anos de idade. Tenho percebido que as pessoas, incluindo amigos muito queridos, adotam uma postura de "dar de ombros" para a questão do meio ambiente. Ok, talvez para tudo o que é mais sério. Porém, o planeta é, na minha opinião, a coisa mais séria de todas. Sem ele, a gente não vive!

A pergunta, que martela no meu cérebro incessantemente, é Como deixaram que a gente chegasse a este ponto? Não entrarei aqui em questões filosóficas sobre educação, cultura e sociedade, pois pretendo ser breve. Gostaria apenas que refletissem comigo sobre a real responsabilidade que temos sobre o nosso planeta e pelas nossas ações. Somos inteiramente responsáveis, não adianta tirar o corpo fora e dizer que você não tem nada  a ver com isso. Eu tenho, tu tens, ele tem. E os verbos "preservar", "salvar", "mudar" precisam ser conjugados em todas as pessoas, em todos os tempos.

Muitos amigos queridos a mim, inclusive alguns que se consideram bastante preocupados com a questão ambiental, sempre tem os seus "poréns". Quando me questionam sobre o fato de eu ser vegana, por exemplo, e eu lhes respondo com todos os motivos ecologicamente responsáveis, eles não aceitam que o simples (banal, rotineiro, "normal") fato de comer carne é uma contribuição imensa para a destruição dos nossos recursos, especialmente a água, e que isso também contribui diretamente com a má distribuição de alimentos e com a fome no mundo. Também não aceitam quando a responsabilidade pelo futuro do planeta é colocada "nas suas costas". Já ouvi coisas do tipo "só porque meus pais e avós não cuidaram do planeta no passado, tenho que me privar de certas coisas?", quando questionei um conhecido sobre o motivo pelo qual ele jogava bitucas de cigarro no chão. Ou até mesmo sobre economizar água. É muito difícil fazer as pessoas entenderem que o prazeroso banho de 30, 40 minutos não é viável na nossa realidade. Mas se não estamos dispostos a abrir mão de certos confortos "só para salvar o planeta", fica difícil estabelecer um diálogo e mais difícil ainda conseguir salvar o que restou do nosso pobre meio ambiente. Enquanto alguns de nós se esforçam e até se privam de muitas coisas para que as gerações futuras ainda consigam habitar nossa terra, tem gente achando que jogar lixo no chão e desperdiçar água é um direito do ser humano, que destruir a natureza é algo normal, que somos a única espécie que importa e que tem direitos neste planeta, entre outras atrocidades típicas de quem não pensa nos outros. E que todos nós sabemos que é quase senso comum em nossa sociedade.

Portanto, prestemos atenção:

- O planeta Terra não é uma realidade afastada de nós, ele é um organismo vivo, do qual fazemos parte. E, como em todo organismo, cada parte possui uma função específica para o seu bom funcionamento. Se esta parte não cumpre seu propósito, compromete todo o resto. O ser humano tem se mostrado como um fígado com cirrose, rins infeccionados, coração com as artérias entupidas de colesterol. Nós sabemos bem o que acontece quando estes órgãos ficam assim, não é mesmo?

- Não é "normal" nevar no verão e fazer calor no inverno, mas nós nos acostumamos a esse tipo de realidade absurda, e achamos que faz parte das mudanças naturais do mundo. Mas não faz. Se vivemos estas condições extremas, a culpa é inteiramente nossa.

- O aquecimento global causado pelo efeito estufa não é o único problema a ser combatido. Portanto, simplesmente reduzir suas emissões de CO2 não é suficiente para "fazer a sua parte". Precisamos mais do que simplesmente estas pequenas partes. Uma mudança radical de consciência é necessária neste momento.

- Consumo consciente não se trata só de comprar produtos orgânicos ou feitos com materiais reciclados. Quando compramos algo, também compramos sua embalagem, ou seja, precisamos pensar sempre no que fazer com o material que envolve os produtos orgânicos. Reparei que todas as casas em que convivo produzem muito mais lixo inorgânico do que orgânico. Para onde destinamos este lixo? O que fazemos para reaproveitar tantos recursos que, geralmente, são despejados nos lugares inadequados?

Estas são apenas algumas questões para serem refletidas, discutidas, aplicadas no nosso dia a dia. Acredito que "fazer a sua parte" vai além de pequenos hábitos escondidos na sua casa. Espalhe informações, seja a mudança, dê exemplos, e faça sacrifícios, sim. É muito fácil querermos que tudo mude magicamente, sem que precisemos de nenhum esforço. É como querer emagrecer sem dietas ou exercícios, passar na prova sem estudar ou ganhar dinheiro sem trabalhar. O famoso "jeitinho brasileiro", ou melhor, o "jeitinho do ser humano". Será que não é justamente por conta deste "jeitinho" que estamos onde estamos?

Lógico, após o "sermão", algumas dicas mais-do-que-básicas, com as quais todos já devem estar familiarizados, mas que vale a pena reforçar:

- Prefira produtos locais, de pequenos produtores;

- Procure saber a origem de tudo o que você consome - essa é a verdadeira responsabilidade do consumidor;

- Evite imprimir coisas desnecessárias - converse com seu banco, com as empresas que enviam mala direta para sua casa, e peça para enviarem, por exemplo, via email. Não aceite panfletos e folhetos informativos se você tiver acesso a informações online. Mala direta geralmente vai para o lixo, é um desperdício total de recursos e dinheiro. Se você realiza opeações bancárias online, acabe com as faturas de cartão de crédito, entre outras contas. Isso pode ter um impacto significativo no meio ambiente!

- Caminhe mais, use menos o seu carro e utilize mais e mais o transporte coletivo. É ruim, é lotado, é precário, mas isso também é algo que podemos mudar. Quanto mais utilizamos estes serviços, mais chances temos de conseguir melhorá-los. Além disso, seja a favor das caronas. Veja se alguém que mora próximo de você segue o mesmo caminho para o trabalho ou para a faculdade/escola e façam um revezamento de carros. Dessa forma, por haver menos carros nas ruas, além de reduzir as emissões de CO2, você também contribui para que o trânsito fique mais agradável.

- Recicle. Óbvio, eu sei, mas não falo de simplesmente destinar o lixo limpo à coleta seletiva. Reutilize, mesmo. Crie objetos de arte com embalagens de vidro, plástico, alumínio, faça bolsas com roupas usadas, esse tipo de reciclagem. É uma terapia e tanto! Se você não possui dotes artísticos, procure ONGs e artistas locais, certamente eles se interessarão pelos seus materiais.

- Nunca, jamais se esqueça de que o planeta vive sem você, mas que é impossível você viver sem ele. Na minha opinião, esta é a principal premissa a ser seguida.

Para mais informações sobre o Blog Action Day, acesse http://www.blogactionday.org/, ou siga no twitter.

7.10.09

Volver a los dieciocho

A nossa idade é a soma do nosso espírito, jovem ou velho, com o que o nosso corpo aparenta. Nossas experiências, alegrias, tristezas, tudo isso está impresso na alma e na carne. De nada adianta ter o visual mais moderno, bem cuidado e jovial do mundo e ter o espírito carregado de coisas ruins e que envelhecem. O contrário também se aplica - um espírito de juventude, por si só, não dá conta de levantar um corpo cansado e "detonado". Sendo assim, é necessário cuidar bem das duas partes.

Dentro de dez dias completo vinte e sete anos, entrando na estrada sem volta rumo aos três-ponto-zero. Isso parecia algo ruim, e eu me sentia uma velha, até que decidi passar uma semana com meu primo e seu roomate, ambos na "flor da idade" universitária, dezoito aninhos, no ápice do desapego, da vontade de curtir, da sede por conhecimento e aventura. Desnecessário dizer que fui contagiada por esse espírito de uma vez por todas, e que o complexo de idosa foi embora, dando lugar à nostalgia e às boas lembranças. Junto com elas, a minha vontade de voltar a ser adolescente, sem, é claro, abrir mão de tudo o que aprendi e cresci nestes anos todos. A vontade de fazer transparecer o espírito divertido, que não tem vergonha de sorrir, errar, chorar, viver sem amarras, fazer perguntas, voltar atrás... O espírito que se permite e que não leva as coisas tão a sério.

Tenho a impressão de que a sociedade nos exige uma postura excessivamente adulta após os 20 e tantos anos. Como se, ao terminar a faculdade, recebêssemos uma pasta e um terninho, e pronto, aí está a sua vida, é a isso que você se resume.  Temos que ter o emprego dos sonhos (de quem?) , a carreira dos sonhos, o namorado dos sonhos, o corpo dos sonhos.... Tudo tem que estar a meio caminho andado.

Well, guess what? Aqui as coisas mal começaram.
Mandei às favas esse desespero, essa pressa para tudo, o franzir a testa e guardar o brilho dos meus olhos na gaveta. A nostalgia triste abriu caminho para o desejo de manter sempre este meu espírito adolescente, de aventura, descobertas, um pouco de inocência e vontade de mudar o mundo. Sem complexo de Peter Pan. Abraçando as responsabilidades e até mesmo os problemas com menos rigidez, de forma mais serena e suave. Um passarinho me contou que se preocupar demais dá rugas, envelhece e deixa a gente chato. Outro, ainda, me disse que essa ditadura do tempo é mais do que irrracional, já que o mundo não gira em torno do nosso umbigo. É importante trabalhar, estudar, e tudo o mais, porém o "viver" vai além de simplesmente ter uma carreira (seja lá o que isso signifique) e ser bem sucedido. Nossa geração deseja viver mais de cem anos para poder aproveitar um pouco mis a vida, já que trabalhamos até quase os setenta. Repito, é irracional....
Mas a juventude, quando nos acompanha, quando está dentro de nós, nos ajuda a notar melhor as nuances das possibilidades. Para nós, mais velhos, parece que tudo será mais ou menos previsível, mas para os adolescentes, tudo pode acontecer.

E esta é a beleza de se ter dezoito anos. Mesmo quando o RG indica quase dez a mais....

Nota: Aproveito o falecimento de Mercedes Sosa e faço a ela uma singela homenagem com este título e com a música que segue, que fez parte da minha infância e adolescência, e que sempre me faz sentir fluir a juventude dentro de mim. Que todos nós saibamos manter nosso espírito de los dieciocho, diecisiete ou à idade que nos manterá jovem eternamente.


28.9.09

Medúlla



Quem me diz este oi, esta resposta que me faz companhia aqui, hoje, até agora? Quem é, olá, que não responde de volta, uma, duas luzes brilhando logo ali, perto do coração. Quem, quem, quem. Quem? Ninguém. Impossível, deve haver alguém. Aqui nesta maré de emoções. A solidão não tem morada nesta moldura que me reflete. Respiro, volto, olho para frente, o encontro é certo. Mas quem, meu Deus? Está escuro, a alma esvaziou-se, parece que paira, perdida, pelas paredes de pedra da casa. Está aqui, este sustentáculo, este pilar de força, erguendo os músculos que flacidamente o revestem de ternura e apreensão. Quem? É esta, a coluna que veste a minha carne, ou a que me entorta e inclina em direção ao polo norte? De que matéria é feita, como sabe de mim, como pode dar a vida dessa forma? É azul, vermelha, amarela, ou possui as cores derivadas de todas as cores do mundo? 

Olho para frente, para os lados, está aqui, esta parte líquida de ser, um milésimo da sua essência, agregado a tantas outras partes que derretem e se petrificam num constante fluir de imagens que torcem-retorcem, batem, pulsam. Quem, quem, quem? O pulso de mil cavalos correndo pelos prados do meu peito. Não param, disparam as incertezas em direção ao horizonte dos meus olhos. Mas eu não vejo, esta coluna de fumaça e aço. Frágil como água limpa, resistente como o mais forte dos alicerces. De sons angelicais e sublimes, vestidos de branco e preto.

Isto me eleva, traz a sorte de não cair e permanecer intacta, em ordem de batalha. É uma lança, um punhal, a mão do carrasco que açoita os nervos e me leva a  proferir as palavras - nem sempre tão certas - e guardá-las em uma caixa, uma a uma, envoltas em espera. Esta é a mão que me conduz. Forte, impulsiva, que afasta dos olhos a trave que me cegava. Grande, imponente. E, no entanto, invisível, só pode ser percebida pelos que creem na ciência e temem a morte. Esta é a coluna que me ampara quando meu ser balança, daqui para lá, como em ondas de gelo e mar. Enquanto a alma, vazia, vela pela voz de veludo que sussurra para onde ela deve regressar, lá está o pilar que me incomoda. E me suporta. Não vai embora, nunca.

E, de tão invisível, cansada de esconder-se, esta viga de sustentsação se atreve a me olhar nos olhos neste instante. E me diz olá, com a mais infantil naturalidade e supondo o que não deveria supor. É parte de mim, e não a conheço, é transparente e translúcida, não a consigo enxergar, e ela se desespera, balançando de um lado para o outro os braços de metal, afiados e grossos.

Quem é esta, isto, este ou aquilo que me comprimenta nestas horas de abismo, farfalhando seu manto prateado e ondulando o cetim preso em seus cabelos, com a força do vento? É uma salvação, um aleluia que grita dentro da alma silenciosa. Um fluir de mar sem sal. É de todas as cores que existem, e mais as que ainda não foram criadas. É sono, despertar e paz. Guerra, não, mas leva a minha inteligência a duelar com o meu coração. Ela existe, esta pilastra, esta coluna de fogo, para que eu não me desmonte e eu existo para que ela possa viver. É assim - uma mão que segura a outra. E ela me levanta, todos os dias, sorridente, para me tornar cada vez mais semelhante ao que chamam de pessoa. Com alma, plena. Sem se deixar esvaziar...

23.9.09

Meu lado House


Ironia, mau-humor, falta de tato, sarcasmo, genialidade, ceticismo, tendência a vícios e um ego gigante. Estes são alguns dos elementos que compõem a personalidade do fantástico Dr. Gregory House, protagonista da série mais bacana da atualidade, House, exibida aqui no Brasil pelo Universal Channel e pela Rede Record.
Mas nem só de defeitos, ou virtudes negativas, se preferir, nosso contraditório amigo é composto. Ele é a típica personificação do cara valente, que é mais sensível do que todos os outros seres às questões humanas, que sente e sofre muito, mas, por ter quebrado a cara - a sua e as dos outros - diversas vezes, perdeu a fé. Adotou a máscara como verdade absoluta - o que, aliás, ele persegue com fervor. Engraçado, logo ele que é tão cínico e descrente, demonstra um ardor quase asceta quando se trata de descobrir a verdade - ainda que disfarçado por uma incessante necessidade de provar que está sempre certo.

Tenho acompanhado todas as temporadas, desde sua estreia, e devo dizer que a cada episódio eu me apaixono mais e mais por este cara tão complexo, e por todas as suas facetas. O que me ajudou a aceitar que não adianta, ninguém é perfeito, e a verdadeira virtude do amor é aceitar estas imperfeições, com serenidade, praticamente agindo como o Dr. Wilson, melhor amigo de House, ou mesmo como Cuddy que consegue ver além destas máscaras.

Ontem, ao assistir ao primeiro episódio da tão aguardada 6ª temporada, me identifiquei demais com o lado mais mulherzinha do nosso rabugento doutor. Não preciso dizer que me acabei em prantos madrugada adentro... O início desta temporada exibe uma prévia do que provavelmente será o tema central daqui pra frente - a recuperação da fé, da humanidade, da capacidade do médico em acreditar e confiar nos outros, e também em si mesmo. Vemos aqui um Greg mais maleável, que reconhece sua doença e finalmente pede ajuda - o que já ficava mais evidente nas últimas duas temporadas.

Acontece que fui tomada por um inevitável reconhecimento.
Acredito que todos nós temos um lado "House". Aquela parte ranzinza, sempre sobrevoada por uma nuvem negra, masoquista, narcisista, maquiavélica. Aquele pedaço que insiste em tornar todo o resto podre e sujo, e ao qual nos agarramos por termos medo ou por qualquer outra desculpa, para fingir que estamos no controle de todos os aspectos de nossa existência.

Entre uma lágrima e outra, assistindo a esta nova fase do meu personagem favorito, cheguei a esta breve conclusão: meu lado House também precisa de ajuda. E, de fato, já estou em fase de transição.
Como Greg, quero recuperar a minha fé na humanidade e, principalmente, em mim mesma. Superar as merdas da minha vida, e parar de tentar consertá-las. Reconhecer o fracasso e pronto, concentrando minhas energias nas minhas conquistas, somente. Admitir que eu tenho os meus defeitos, aceitá-los, conviver com eles e desejar, de verdade, ser feliz, melhor, mais viva. Ser capaz de me abrir para o mundo. Parar de fingir que as pessoas são normais, e que o sistema é que as oprime - apesar de isso ser verdade em alguns casos, na maioria das vezes as pessoas simplesmente são doentes, precisam mesmo de socorro. E, por fim, deixar de lado, de uma vez por todas, essa síndrome inútil de "Freedom Master" (spoiler, quem viu o episódio vai entender...). Eu não tenho superpoderes e nem todo mundo tem salvação. Contudo, no fim das contas, é sempre possível enxergar além do que os olhos alcançam, e notar que pequenos gestos são, sim, propícios para a redenção dos que necessitam de auxílio.

Everybody Lies. Sim, todo mundo mente, é um fato. Porém, pior mentira é quando enganamos a nós mesmos. E é justamente desse lado House que eu quero me livrar...

Recomendo a todos assistirem a esta série, é um ótimo caminho para compreendermos melhor a natureza humana.
Você pode baixar este episódio aqui.

19.9.09

São Paulo, Pearl Jam e alguns livros

Sobreviver a esta semana foi um colossal desafio intelectual, espiritual e afetivo para esta pessoa que vos fala. Eu diria até que foi uma das semanas mais árduas que já tive desde que saí de Santos. A solidão pegou geral, tive insights geniais, porém enxarcados de memórias que eu gostaria de evaporar da minha imaginação, trabalhei que nem uma condenada e fui acometida por uma insônia desesperadora. Quase quatro dias sem dormir, não há mente que aguente! Para minha agonia, São Paulo me aguardava na sexta-feira...

Pois a sexta chegou, com a expectativa de livros, encontros com amigos, e um pouco de sono, com a bênção de Morfeu. Entrei em contato com todo o caos de Sampa, me senti dividida entre o fugere urbem e a cidade que não dorme, olhei meu rosto no espelho e percebi que não sou a mesma há algum tempo. Enfrentei o stress com maturidade e calma, consegui recuperar o sono perdido, ensinei a mim mesma como sorrir verdadeiramente, ainda que eu esteja um pouco triste. Vestir a máscara, e deixar que aos poucos ela molde o meu rosto, transformando-o num enorme sorriso sincero. Decidi que não vou mais lamentar o amor que "ele" sente por outra, mesmo sentindo tudo o que sinto. E que o meu livro é a minha prioridade daqui pra frente, ainda mais importante do que o meu trabalho que, for better or worse, é a única coisa, depois de Deus, que me faz companhia todos os dias....

E hoje, neste sábado confuso, cheio de perfumes, sonhos, anseios, saudades, palavras entaladas na garganta, presas nos dedos, loucas para saltarem para o papel, resolvi, assim como quem não quer nada, escutar o novo cd do Pearl Jam, Backspacer, pelo qual aguardei ansiosamente desde o início do ano. Devo confessar que foi a melhor coisa da semana. Do mês. E, por quê não?, do ano. Um desfecho redentor para uma pessoa cansada, carente e que precisava de um afago, ainda que "virtual", de um amigo da alma que sequer imagina que eu existo. Pois os amigos reais têm suas vidas e a máscara de pessoa forte, feliz e de bem com a vida colou no meu rosto, de modo que não consigo mais desabafar, chorar as pitangas, nem nada. Só aqui mesmo. Só no virtual.

É bom. Essa coisa de reclamar da vida já deu, não leva a nada.
Eu tenho cinco novos livros, os quais estou louca para devorar ávidamente, tenho Backspacer, tenho São Paulo, arte, e um espelho gigante para refletir as mudanças às quais humilde e alegremente me submeto.
Tenho a Primavera, que apressa a vontade de amar, e que desabrocha as flores do meu jardim.
Tenho o cansaço que dissipa a insônia, e tenho esperança. Por mais pessimista que eu pareça às vezes, eu acredito que as coisas sempre melhoram, e que a vida nos testa, nos judia, para ver se a gente é fiel o suficiente para receber as grandiosas dádivas que estão reservadas logo mais adiante. Para ver se os nossos olhos conseguem enxergar a beleza em meio ao caos - aquela florzinha frágil e delicada que nasce no meio do entulho, o passarinho pousado no fio de alta tensão da Avenida do Estado, os Ipês da Marginal Tietê. Se nós somos capazes de agradecer pelas coisas boas, especialmente quando elas parecem escassas.

Eu tenho fé que o Pearl Jam vai voltar pro Brasil, que os meus recém-adquiridos livros serão cruciais para a composição da minha criação literária, que vou conseguir conciliar a metrópole com o interior e encontrar um lugar e um alguém onde eu possa repousar a minha alma.
Sim, eu tenho fé, tenho esperança. Porque se elas morressem, nem Pearl Jam, nem São Paulo, nem os livros, muito menos um amor, me fariam continuar...